Em épocas passadas era comum os padres desempenharem
funções que iam além das suas funções sacerdotais mais simples, tais como as celebrações
eucarísticas ou a evangelização dos seus rebanhos.
Teólogos por formação, embasados em estudos de
línguas e fundamentos filosóficos, bem instruídos e, por vezes, de origens
abastadas; viajados, poliglotas, num tempo em que as missas eram ditas em
latim, os futuros presbíteros saiam dos seus seminários com um grau de educação
bem superior ao habitante mediano, sobretudo ao interiorano, das distantes
localidades, carentes em quase todos os aspectos.
Tornavam-se assim e naturalmente, revestidos da
respeitabilidade que suas batinas lhes outorgavam, entre outras coisas, conselheiros espirituais, assistentes sociais, psicólogos, educadores,
mediadores de causas cíveis, agentes de profilaxia na saúde, farmacêuticos,
políticos.
Possuíam livre transito nas residências dos seus
paroquianos e, dentro dos seus domínios suas palavras transformavam-se em leis...
inquestionáveis, determinantes e substanciadas pelo poder divino que
representavam.
Antônio Tabosa Braga (1874-1935) tornou-se
vigário-geral da Arquidiocese de Fortaleza no final de 1924, tendo recebido do
arcebispo D. Manuel da Silva Gomes, em 25 de dezembro daquele ano, o título
eclesiástico de protonotário apostólico, sendo conhecido desde então como
Monsenhor Tabosa.
Homenageado com denominação de famosa avenida na
capital cearense (a antiga Rua do Seminário), teve seu nome igualmente
eternizado ao ter a localidade de Arraial da Telha (antiga Forquilha), no
sertão central do estado - limítrofe aos Concelhos de Tamboril e Santa Quitéria
-, batizada com o seu nome, como município, a partir de 1955.
Apesar de ser filho natural de Itapipoca,
ordenou-se na Paraíba (em novembro de 1898), porque o reitor do Seminário de
Fortaleza de então, Pe. Júlio Simon, disse, quando ele cursava o primeiro
ano de filosofia, não ter ele vocação para o sacerdócio.
Formou-se também como jornalista, tendo utilizado o
pseudônimo de O Velho Nicodemus nos
seus vários escritos.
Foi pároco de Pacoti entre 1906 e 1921 e durante
este período, além do seu trabalho, reconhecidamente atuante à frente da sua
congregação, protagonizou estórias pitorescas, algumas hilariantes, que se
perpetuaram na memória dos habitantes da sua freguesia.
Eis algumas:
Para utilizar-se das propriedades diuréticas da
água dos seus frutos, Padre Tabosa havia semeado, em uma das laterais da sua
igreja, algumas mudas de coqueiros.
Vegetal de múltiplas aplicações medicinais e na
culinária, os pés de coqueiro eram muito ocasionais em Pacoti, (e no Maciço
como um todo, inclusive nos dias atuais); talvez devido a difícil adaptação de
uma planta de características tão tropicais, pouca chegada às temperaturas mais
baixas da serra, que assim produzem pouco e muito tardiamente. Tudo isso, além
da dificuldade e precariedade dos transportes na época, somado à larga
utilização dos seus subprodutos na dieta dos serranos, fazia com que cocos
fossem bastante procurados.
Deste modo, o padre foi forçado a esperar alguns
anos, para ver os resultados da sua iniciativa vingar. E quando imaginou que
fora chegado o tempo das benesses, encontrou-se contrariado no seu desejo:
larápios subtraíam-lhe os frutos e por mais que tivesse se tornado vigilante,
não conseguia presenciar a ação dos gatunos.
Até que uma de suas carolas alertou ao inadvertido
santo homem: seus preciosos frutos eram furtados nos momentos em que ele
oficiava suas obrigações.
Teve então a ideia de acomodar um pequeno espelho sobre o altar, de forma que pudesse visualizar os coqueiros durante a missa e, assim, surpreender a ação dos eventuais ladrões.
Teve então a ideia de acomodar um pequeno espelho sobre o altar, de forma que pudesse visualizar os coqueiros durante a missa e, assim, surpreender a ação dos eventuais ladrões.
Seu estratagema foi perfeito: em uma das suas
missas rezadas, logo após a consagração, no exato instante em que elevava o
cálice sagrado, visualizou o reflexo dos malfazejos em flagrante delito,
subindo avidamente nos coqueiros e, palavras cortadas, resmungou entredentes,
vociferando raivosamente:
- Sobe, ladrão! Sobe, ladrão sem-vergonha!
- Sobe, ladrão! Sobe, ladrão sem-vergonha!
Os fiéis não entenderam nada.
Ao alvoroço que se seguiu, com exclamações de “o
padre ficou doido!”, correria estabanada dos cristãos e a indignação com a
aparente e inaceitável irreverência do celebrante, as coisas findaram
esclarecidas, os meliantes foram identificados e, diz-se, ninguém nunca mais
ousou sequer tocar nos cobiçados cocos do padre.
No decorrer da segunda metade da década de 70 do
século XIX, chegaram ao Pacoti, oriundos do Recife, José da Cunha Medina e sua
esposa, Maria da Glória, acompanhados de um irmão pequeno dela, além da sua
sogra e um irmão dele, Medina. Tinham vindo ao Maciço no intuito de tratar o
infante, que sofria de tuberculose e que, por indicações médicas em relação aos
benefícios que o ar serrano poderia lhe proporcionar, escolheram (desconhece-se
o motivo, já que em Pernambuco existem algumas elevações com microclima
semelhantes) a Serra de Baturité. A tentativa de nada valeu: o garoto acabou
falecendo. Mas os Medina ficaram e ajudaram a construir o perfil do Riacho das
Cobras, localidade que escolheram para se estabelecer (o irmão de Medina optou
por morar na Forquilha, distante um quilômetro).
Originalmente os irmãos Medina eram quatro e provenientes
da cidade de mesmo nome, em Portugal (a toponímia era um hábito daqueles
tempos). Levados a tentar a sorte no Brasil, desembarcaram na capital
pernambucana, onde permaneceram, tendo um deles continuado viagem ao Rio de
Janeiro, onde formou famosa e rica família carioca.
José da Cunha era um comerciante nato: abriu loja
de comércio, prosperou, fundou a feira da localidade e tornou-se o Pai Medina, o patriarca da família e
protetor do lugar. Em homenagem às suas origens (ou à da Mãe
Sinhá, sua esposa, não se sabe bem ao certo), Riacho das Cobras passou a
ser conhecido como Pernambuquinho.
Tiveram vários filhos.
A mais velha das meninas, Virgínia Laura da Cunha
Medina (1880-1922), casou-se com João Brasiliano de Mendonça e foi morar no sítio
Caga-fogo, depois Botafogo. Propriedade bem extensa, boa produtora de café (seiscentas
sacas num ano ruim), nela nasce o Rio Pacoti, numa grota chamada Escondido.
Era comum os filhos das pessoas com alguma posse
irem estudar no Rio de Janeiro, de onde traziam os nomes com que batizariam
várias propriedades da serra: Tijuca, Flamengo, Realengo, Botafogo...
Alguns anos depois, Virgínia Laura estava em sua
casa, aplicando nos seus filhos um castigo à moda antiga: uma sova de
palmatória. A traquinagem coletiva deve ter sido grande naquele dia... Enfileirados,
as crianças aguardavam, entre choros e soluços, um a um, sua vez de levar uns “bolos”,
quando, de supetão, adentra o Padre Tabosa, em mais uma de suas costumeiras,
mas inesperadas visitas. Entre alarmada e envergonhada, Virgínia tentou, com a
ajuda das suas amas, esconder a férula. Foi inútil, o Padre já se inteirara da
situação. Com gestos tácitos e fala mansa, pediu que lhe entregassem a
palmatória, no que foi prontamente atendido. E para surpresa de todos,
principalmente da dona da casa, benzeu o objeto de punição e devolveu-o,
dizendo:
- Pronto, pode acabar com a pena!
Dirigiu-se tranquilamente para a varanda, onde foi
bebericar um café.
Depois de concluído os “trabalhos”, Virgínia Laura
foi ter com ele, pediu-lhe perdão pela situação, confessando-se mortificada
pelo constrangimento.
A resposta do Padre norteou a criação da família
por décadas e é um emblema da sombria educação de outrora:
- Dona Virgínia, na casa onde os filhos não choram,
os pais chorarão!
Atender todas as demandas religiosas dos
paroquianos de Pacoti devia ser, na época do Padre Tabosa, um suplício... Um
dos trabalhos de Hércules, certamente.
Vivendo em um tempo sem transportes adequados (o
primeiro automóvel a rodar no Maciço somente o fez, em Guaramiranga, em 1923,
quando o futuro Monsenhor não mais habitava a serra) e transitando por vias
tortuosas, em lombo de montarias (a estrada da Pendanga, na região das Quebradas,
no rumo de Campos Belos, onde Tabosa peregrinou diversas vezes, foi construída apenas
em 1934), os párocos se submetiam a situações de desconforto e penitência.
Era natural que os trabalhos fossem realizados coletivamente.
Ainda hoje é desta maneira.
Para um determinado distrito era escolhido uma data
para um ritual católico qualquer, como o batismo, por exemplo, e naquele dia,
vários eram os pagãos ungidos no sagrado sacramento.
Caso contrário, não haveria como um único padre
corresponder às necessidades de todos os fiéis.
Assim, em certa ocasião, o Padre Tabosa iria unir
em matrimônio comunitário um número em torno de dez casais. A pomposa
cerimônia aconteceria em Pernambuquinho, num dia de domingo.
Na hora marcada, já no altar, paramentado de casula
e estola, o padre observou a presença de dois casais que destoavam dos demais.
Ao menos na opinião dele.
Um era um rapaz bem alvo, que fazia par com uma
morena de cor bem acentuada.
Outro, um negro, querendo casar com uma jovem de
tez bem clarinha.
Na serra, onde a existência dos pretos cativos
prorrogou-se bem além da emancipação negra, eram muito comuns essas miscigenações.
Mas não para o pároco, acostumado a modelos bem
estabelecidos.
Incontinente, sem titubear, vaticinou o destino
daquele quarteto.
Ordenou, com gravidade, que trocassem imediatamente de pares e ainda justificou, sem delongas:
Ordenou, com gravidade, que trocassem imediatamente de pares e ainda justificou, sem delongas:
- Branco com branco, preto com preto!
E pronto. Manda quem pode, ...
O que se sabe é que esses casais trocados,
subservientes à vontade clerical, permaneceram casados e unidos por muitos anos,
tal como imaginado pelo celebrante, como se formados fossem de longa data.
Que tempos aqueles em que as pessoas tomavam todos os
acontecimentos como se vontades celestiais os determinassem!
Não se pode afirmar que o padre estava certo. Nem
errado.
Mas a verdade indubitável é esta!
Austero, sisudo e extremamente fiel aos seus
princípios, Padre Tabosa era completamente contra a lassidão ou tudo que comprometesse
a dignidade humana ou que tivesse tendência para contrariar a probidade
estabelecida e os bons costumes. Posso imaginar a trabalheira que foi tentar
impor preceitos morais na Pacoti dos primeiros anos do século passado, numa
região que produzia boas cachaças e onde a jogatina permeava o cotidiano das
pessoas residentes.
O inimigo número um, contra o qual o padre batia-se
ferrenhamente, era o jogo do bicho.
Costume arraigado nos moradores de então, contava
contra o padre um banqueiro eficiente, com rede de venda de jogo bem estruturada
e uma população financeiramente necessitada, que depositava nas suas apostas as esperanças
de dias melhores.
Tabosa resolveu contra-atacar no seu território.
Utilizava-se repetidamente das homilias para demover a fixação do terrível
vício, citando exemplos de indivíduos levados à bancarrota pelo hábito
inveterado e condenável, que ademais, era ato considerado pecaminoso pela Santa
Madre Igreja.
Num dos sermões, mais exaltadamente, caiu na
besteira de proferir nomes designativos dos oponentes, como figuras. Teria dito,
em tom de crítica, algo como:
- As pessoas são muito ingênuas. Passam a vida
jogando no cavalo, mas o que dá é o cachorro!
Terminada a missa, os mais impregnados pelo mau
costume acorreram em grande número às bancas para apostar no cachorro. Quando o
resultado do sorteio saiu, deu... cachorro! Na cabeça.
Quando soube do ocorrido, Padre Tabosa mostrou-se
profundamente irritado com a coincidência, negando-se a comentar coisas
correlatas ao seu (in)feliz palpite.
Além de quebrar a banca, que levou longo tempo para
se recuperar, o padre ficou famoso pela capacidade de realizar prognósticos
acertados.
Tanto que, no dia seguinte, um de seus mais fervorosos
assistentes, veio lhe perguntar:
- Seu Padre, qual o palpite bom para o bicho de
hoje?
Dizem que a resposta é impublicável!
Estas historietas (e dezenas de outra mais) devo-as
à minha família, acostumado que fui a escutá-las a vida toda. Em especial à
minha mãe, Sônia de Mendonça Motta e a uma prima dela, Marita Mendonça
Fontenele, ternas criaturas de memórias prodigiosas, que não retransmitem
estórias; e sim, romanceiam lembranças, que me transportam a elas, sem as ter
vivido. Amo-as!
Parte dos dados bibliográficos foram recolhidos em:
E também em:

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