sexta-feira, 17 de maio de 2013

MONSENHOR TABOSA E O PACOTI



Em épocas passadas era comum os padres desempenharem funções que iam além das suas funções sacerdotais mais simples, tais como as celebrações eucarísticas ou a evangelização dos seus rebanhos.
Teólogos por formação, embasados em estudos de línguas e fundamentos filosóficos, bem instruídos e, por vezes, de origens abastadas; viajados, poliglotas, num tempo em que as missas eram ditas em latim, os futuros presbíteros saiam dos seus seminários com um grau de educação bem superior ao habitante mediano, sobretudo ao interiorano, das distantes localidades, carentes em quase todos os aspectos.
Tornavam-se assim e naturalmente, revestidos da respeitabilidade que suas batinas lhes outorgavam, entre outras coisas, conselheiros espirituais, assistentes sociais, psicólogos, educadores, mediadores de causas cíveis, agentes de profilaxia na saúde, farmacêuticos, políticos. 
Possuíam livre transito nas residências dos seus paroquianos e, dentro dos seus domínios suas palavras transformavam-se em leis... inquestionáveis, determinantes e substanciadas pelo poder divino que representavam.



Antônio Tabosa Braga (1874-1935) tornou-se vigário-geral da Arquidiocese de Fortaleza no final de 1924, tendo recebido do arcebispo D. Manuel da Silva Gomes, em 25 de dezembro daquele ano, o título eclesiástico de protonotário apostólico, sendo conhecido desde então como Monsenhor Tabosa.
Homenageado com denominação de famosa avenida na capital cearense (a antiga Rua do Seminário), teve seu nome igualmente eternizado ao ter a localidade de Arraial da Telha (antiga Forquilha), no sertão central do estado - limítrofe aos Concelhos de Tamboril e Santa Quitéria -, batizada com o seu nome, como município, a partir de 1955.
Apesar de ser filho natural de Itapipoca, ordenou-se na Paraíba (em novembro de 1898), porque o reitor do Seminário de Fortaleza de então, Pe. Júlio Simon, disse, quando ele cursava o primeiro ano de filosofia, não ter ele vocação para o sacerdócio.
Formou-se também como jornalista, tendo utilizado o pseudônimo de O Velho Nicodemus nos seus vários escritos.
Foi pároco de Pacoti entre 1906 e 1921 e durante este período, além do seu trabalho, reconhecidamente atuante à frente da sua congregação, protagonizou estórias pitorescas, algumas hilariantes, que se perpetuaram na memória dos habitantes da sua freguesia.
Eis algumas:



Para utilizar-se das propriedades diuréticas da água dos seus frutos, Padre Tabosa havia semeado, em uma das laterais da sua igreja, algumas mudas de coqueiros. 
Vegetal de múltiplas aplicações medicinais e na culinária, os pés de coqueiro eram muito ocasionais em Pacoti, (e no Maciço como um todo, inclusive nos dias atuais); talvez devido a difícil adaptação de uma planta de características tão tropicais, pouca chegada às temperaturas mais baixas da serra, que assim produzem pouco e muito tardiamente. Tudo isso, além da dificuldade e precariedade dos transportes na época, somado à larga utilização dos seus subprodutos na dieta dos serranos, fazia com que cocos fossem bastante procurados.
Deste modo, o padre foi forçado a esperar alguns anos, para ver os resultados da sua iniciativa vingar. E quando imaginou que fora chegado o tempo das benesses, encontrou-se contrariado no seu desejo: larápios subtraíam-lhe os frutos e por mais que tivesse se tornado vigilante, não conseguia presenciar a ação dos gatunos.
Até que uma de suas carolas alertou ao inadvertido santo homem: seus preciosos frutos eram furtados nos momentos em que ele oficiava suas obrigações.
Teve então a ideia de acomodar um pequeno espelho sobre o altar, de forma que pudesse visualizar os coqueiros durante a missa e, assim, surpreender a ação dos eventuais ladrões.
Seu estratagema foi perfeito: em uma das suas missas rezadas, logo após a consagração, no exato instante em que elevava o cálice sagrado, visualizou o reflexo dos malfazejos em flagrante delito, subindo avidamente nos coqueiros e, palavras cortadas, resmungou entredentes, vociferando raivosamente:
- Sobe, ladrão! Sobe, ladrão sem-vergonha!
Os fiéis não entenderam nada.
Ao alvoroço que se seguiu, com exclamações de “o padre ficou doido!”, correria estabanada dos cristãos e a indignação com a aparente e inaceitável irreverência do celebrante, as coisas findaram esclarecidas, os meliantes foram identificados e, diz-se, ninguém nunca mais ousou sequer tocar nos cobiçados cocos do padre.



No decorrer da segunda metade da década de 70 do século XIX, chegaram ao Pacoti, oriundos do Recife, José da Cunha Medina e sua esposa, Maria da Glória, acompanhados de um irmão pequeno dela, além da sua sogra e um irmão dele, Medina. Tinham vindo ao Maciço no intuito de tratar o infante, que sofria de tuberculose e que, por indicações médicas em relação aos benefícios que o ar serrano poderia lhe proporcionar, escolheram (desconhece-se o motivo, já que em Pernambuco existem algumas elevações com microclima semelhantes) a Serra de Baturité. A tentativa de nada valeu: o garoto acabou falecendo. Mas os Medina ficaram e ajudaram a construir o perfil do Riacho das Cobras, localidade que escolheram para se estabelecer (o irmão de Medina optou por morar na Forquilha, distante um quilômetro).
Originalmente os irmãos Medina eram quatro e provenientes da cidade de mesmo nome, em Portugal (a toponímia era um hábito daqueles tempos). Levados a tentar a sorte no Brasil, desembarcaram na capital pernambucana, onde permaneceram, tendo um deles continuado viagem ao Rio de Janeiro, onde formou famosa e rica família carioca.
José da Cunha era um comerciante nato: abriu loja de comércio, prosperou, fundou a feira da localidade e tornou-se o Pai Medina, o patriarca da família e protetor do lugar. Em homenagem às suas origens (ou à da Mãe Sinhá, sua esposa, não se sabe bem ao certo), Riacho das Cobras passou a ser conhecido como Pernambuquinho.
Tiveram vários filhos.
A mais velha das meninas, Virgínia Laura da Cunha Medina (1880-1922), casou-se com João Brasiliano de Mendonça e foi morar no sítio Caga-fogo, depois Botafogo. Propriedade bem extensa, boa produtora de café (seiscentas sacas num ano ruim), nela nasce o Rio Pacoti, numa grota chamada Escondido.
Era comum os filhos das pessoas com alguma posse irem estudar no Rio de Janeiro, de onde traziam os nomes com que batizariam várias propriedades da serra: Tijuca, Flamengo, Realengo, Botafogo...
Alguns anos depois, Virgínia Laura estava em sua casa, aplicando nos seus filhos um castigo à moda antiga: uma sova de palmatória. A traquinagem coletiva deve ter sido grande naquele dia... Enfileirados, as crianças aguardavam, entre choros e soluços, um a um, sua vez de levar uns “bolos”, quando, de supetão, adentra o Padre Tabosa, em mais uma de suas costumeiras, mas inesperadas visitas. Entre alarmada e envergonhada, Virgínia tentou, com a ajuda das suas amas, esconder a férula. Foi inútil, o Padre já se inteirara da situação. Com gestos tácitos e fala mansa, pediu que lhe entregassem a palmatória, no que foi prontamente atendido. E para surpresa de todos, principalmente da dona da casa, benzeu o objeto de punição e devolveu-o, dizendo:
- Pronto, pode acabar com a pena!
Dirigiu-se tranquilamente para a varanda, onde foi bebericar um café.
Depois de concluído os “trabalhos”, Virgínia Laura foi ter com ele, pediu-lhe perdão pela situação, confessando-se mortificada pelo constrangimento.
A resposta do Padre norteou a criação da família por décadas e é um emblema da sombria educação de outrora:
- Dona Virgínia, na casa onde os filhos não choram, os pais chorarão!



Atender todas as demandas religiosas dos paroquianos de Pacoti devia ser, na época do Padre Tabosa, um suplício... Um dos trabalhos de Hércules, certamente.
Vivendo em um tempo sem transportes adequados (o primeiro automóvel a rodar no Maciço somente o fez, em Guaramiranga, em 1923, quando o futuro Monsenhor não mais habitava a serra) e transitando por vias tortuosas, em lombo de montarias (a estrada da Pendanga, na região das Quebradas, no rumo de Campos Belos, onde Tabosa peregrinou diversas vezes, foi construída apenas em 1934), os párocos se submetiam a situações de desconforto e penitência.
Era natural que os trabalhos fossem realizados coletivamente. Ainda hoje é desta maneira.
Para um determinado distrito era escolhido uma data para um ritual católico qualquer, como o batismo, por exemplo, e naquele dia, vários eram os pagãos ungidos no sagrado sacramento.
Caso contrário, não haveria como um único padre corresponder às necessidades de todos os fiéis.
Assim, em certa ocasião, o Padre Tabosa iria unir em matrimônio comunitário um número em torno de dez casais. A pomposa cerimônia aconteceria em Pernambuquinho, num dia de domingo.
Na hora marcada, já no altar, paramentado de casula e estola, o padre observou a presença de dois casais que destoavam dos demais. Ao menos na opinião dele.
Um era um rapaz bem alvo, que fazia par com uma morena de cor bem acentuada.
Outro, um negro, querendo casar com uma jovem de tez bem clarinha.
Na serra, onde a existência dos pretos cativos prorrogou-se bem além da emancipação negra, eram muito comuns essas miscigenações.
Mas não para o pároco, acostumado a modelos bem estabelecidos.
Incontinente, sem titubear, vaticinou o destino daquele quarteto.
Ordenou, com gravidade, que trocassem imediatamente de pares e ainda justificou, sem delongas:
- Branco com branco, preto com preto!
E pronto. Manda quem pode, ...
O que se sabe é que esses casais trocados, subservientes à vontade clerical, permaneceram casados e unidos por muitos anos, tal como imaginado pelo celebrante, como se formados fossem de longa data.
Que tempos aqueles em que as pessoas tomavam todos os acontecimentos como se vontades celestiais os determinassem!
Não se pode afirmar que o padre estava certo. Nem errado.
Mas a verdade indubitável é esta!



Austero, sisudo e extremamente fiel aos seus princípios, Padre Tabosa era completamente contra a lassidão ou tudo que comprometesse a dignidade humana ou que tivesse tendência para contrariar a probidade estabelecida e os bons costumes. Posso imaginar a trabalheira que foi tentar impor preceitos morais na Pacoti dos primeiros anos do século passado, numa região que produzia boas cachaças e onde a jogatina permeava o cotidiano das pessoas residentes.
O inimigo número um, contra o qual o padre batia-se ferrenhamente, era o jogo do bicho.
Costume arraigado nos moradores de então, contava contra o padre um banqueiro eficiente, com rede de venda de jogo bem estruturada e uma população financeiramente necessitada, que depositava nas suas apostas as esperanças de dias melhores.
Tabosa resolveu contra-atacar no seu território. Utilizava-se repetidamente das homilias para demover a fixação do terrível vício, citando exemplos de indivíduos levados à bancarrota pelo hábito inveterado e condenável, que ademais, era ato considerado pecaminoso pela Santa Madre Igreja.
Num dos sermões, mais exaltadamente, caiu na besteira de proferir nomes designativos dos oponentes, como figuras. Teria dito, em tom de crítica, algo como:
- As pessoas são muito ingênuas. Passam a vida jogando no cavalo, mas o que dá é o cachorro!
Terminada a missa, os mais impregnados pelo mau costume acorreram em grande número às bancas para apostar no cachorro. Quando o resultado do sorteio saiu, deu... cachorro! Na cabeça.
Quando soube do ocorrido, Padre Tabosa mostrou-se profundamente irritado com a coincidência, negando-se a comentar coisas correlatas ao seu (in)feliz palpite.
Além de quebrar a banca, que levou longo tempo para se recuperar, o padre ficou famoso pela capacidade de realizar prognósticos acertados.
Tanto que, no dia seguinte, um de seus mais fervorosos assistentes, veio lhe perguntar:
- Seu Padre, qual o palpite bom para o bicho de hoje?
Dizem que a resposta é impublicável!







Estas historietas (e dezenas de outra mais) devo-as à minha família, acostumado que fui a escutá-las a vida toda. Em especial à minha mãe, Sônia de Mendonça Motta e a uma prima dela, Marita Mendonça Fontenele, ternas criaturas de memórias prodigiosas, que não retransmitem estórias; e sim, romanceiam lembranças, que me transportam a elas, sem as ter vivido. Amo-as!
Parte dos dados bibliográficos foram recolhidos em:
E também em:


terça-feira, 25 de outubro de 2011

CAJUÍNA

 O genial compositor e cantor baiano Caetano Veloso, ícone de um famoso movimento cultural brasileiro e criador de inúmeras composições que marcaram toda uma geração, certa feita, revelou, em uma entrevista, a história de uma de suas mais belas canções:

Numa excursão pelo Brasil com o show Muito, creio, no final dos anos 70, recebi, no hotel em Teresina, a visita de Dr. Eli, o pai de Torquato. Eu já o conhecia, pois ele tinha vindo ao Rio umas duas vezes. Mas era a primeira vez que eu o via depois do suicídio de Torquato. Torquato estava, de certa forma, afastado das pessoas todas. Mas eu não o via desde minha chegada de Londres: Dedé e eu morávamos na Bahia e ele, no Rio (com temporadas em Teresina, onde descansava das internações a que se submeteu por instabilidade mental, agravada, ao que se diz, pelo álcool). Eu não o vira em Londres: ele estivera na Europa, mas voltara ao Brasil justo antes de minha chegada a Londres. Assim, estávamos de fato bastante afastados, embora sem ressentimentos ou hostilidades. Eu queria muito bem a ele. Discordava da atitude agressiva que ele adotou contra o Cinema Novo na coluna que escrevia, mas nunca cheguei sequer a dizer-lhe isso. No dia em que ele se matou, eu estava recebendo Chico Buarque em Salvador para fazermos aquele show que virou disco famoso. Torquato tinha se aproximado muito de Chico, logo antes do tropicalismo: entre 1966 e 1967. A ponto de estar mais freqüentemente com Chico do que comigo. Chico e eu recebemos a notícia quando íamos sair para o Teatro Castro Alves. Ficamos abalados e falamos sobre isso. E sobre Torquato ter estado longe e mal. Mas eu não chorei. Senti uma dureza de ânimo dentro de mim. Me senti um tanto amargo e triste, mas pouco sentimental. Quando, anos depois, encontrei Dr. Eli, que sempre foi uma pessoa adorável, parecidíssimo com Torquato, e a quem Torquato amava com grande ternura, essa dureza amarga se desfez. E eu chorei durante horas, sem parar. Dr. Eli me consolava, carinhosamente. Levou-me à sua casa. Dona Salomé, a mãe de Torquato, estava hospitalizada. Então ficamos só ele e eu na casa. Ele não dizia quase nada. Tirou uma rosa - menina do jardim e me deu. Me mostrou as muitas fotografias de Torquato distribuídas pelas paredes da casa. Serviu cajuína para nós dois. E bebemos lentamente. Durante todo o tempo eu chorava. Diferentemente do dia da morte de Torquato, eu não estava triste nem amargo. Era um sentimento terno e bom, amoroso, dirigido a Dr. Eli e a Torquato, à vida. Mas era intenso demais e eu chorei. No dia seguinte, já na próxima cidade da excursão, escrevi Cajuína.

Basta se ler a letra da música de Caetano, abaixo transcrita, para se perceber, nitidamente, a enorme sensibilidade e a estupenda capacidade de tradução dos seus sentimentos; além, naturalmente, da facilidade de explicitá-los com tanta maestria, de mostrá-los tão adequadamente à situação vivenciada, tudo condensado na muito conhecida e belíssima melodia.  

Existirmos a que será que se destina
Pois quando tu me deste a rosa pequenina
Vi que és um homem lindo e que se acaso a sina
Do menino infeliz não se nos ilumina
Tampouco turva-se a lágrima nordestina
Apenas a matéria vida era tão fina
E éramos olharmo-nos intacta retina
A cajuína cristalina em Teresina

Com seu expoente lirismo musical, divulgado incessantemente aos quatro ventos, o compositor tornou-se, quase que irremediável e despropositadamente, “culpado”, neste caso, pela equivocada associação de um produto a um lugar: ainda que Cajuína rime sonoramente com Teresina, o famoso sumo clarificado de caju, ao contrário do que a imensa maioria das pessoas costuma imaginar, tem origem: foi batizado, possui filiação e naturalidade.

Mas os enganos em relação à bebida não se restringem somente ao âmbito geográfico.

O cajueiro (Anacardium occidentale), provavelmente, ao longo da história, a frutífera de maior exploração comercial do nordeste brasileiro, é planta nativa do continente sul americano, tendo sido levada pelos colonizadores para a Ásia e África. O caju, de onde se extrai o suco, matéria essencial da cajuína, é na verdade um pseudofruto, um pedúnculo floral do fruto propriamente dito, a castanha de caju. Esta, apreciada e valorizada internacionalmente, campeã na pauta de exportações do Ceará, durante décadas.

Contudo, entre os nativos, o caju é bastante utilizado, pois dele se obtém inúmeras aplicações na alimentação, tanto humana, quanto animal: em sucos, mel e fermentados; ou ainda sob a forma de doces, compotas, rapaduras, passas ou liofilizados, a fibra, a “carne do caju”, é ingrediente de uma enorme variedade de pratos e receitas da gastronomia local.

Suculento, o caju produz um suco que fermenta com muita facilidade. E que pode ser destilado, para se produzir uma aguardente, o cauim.

Ou, apenas fermentado, sob forma não alcoólica, o mocororó, ingerido, desde tempos pré-coloniais, pelos indígenas ocupantes da faixa litorânea do Pará ao Ceará, notadamente os Tremembés, em festivais de dança e cantoria sazonais (assim como o próprio fruto), o Torém.

Bebidas fermentadas utilizadas em festejos anuais não são exatamente incomuns aos habitantes do norte e nordeste brasileiros: durante as festividades juninas, essas populações costumam (ou costumavam) beber aluá, de origem africana, elaborada a partir da fermentação de grãos de milho moídos e adicionados com casca de abacaxi, gengibre, caldo de cana e limão.

Bebidas estas, acima mencionadas, de consumo obliterado pelo distanciamento dos atuais habitantes com as tradições folclóricas e seculares das regiões.

Confusões quanto à denominação da cajuína são verificadas no próprio estado berço da bebida: na micro região do Cariri cearense, produz-se, de alguns anos para cá, um refrigerante gaseificado de caju que, caindo no gosto popular (pela elevada escala industrial de fabricação e distribuição, além do sabor agradável), costuma ser chamado erroneamente de cajuína.

A cajuína é obtida após a realização de vários processos, alguns modificados com o passar dos tempos. O primeiro passo é a extração do suco, originalmente utilizando-se panos que, torcidos com a polpa do pseudofruto colocada internamente, já perfazia a essencial etapa posterior, a filtração: a cajuína é, por característica própria, um líquido extremamente límpido. Métodos modernos do fabrico em quantidades consideráveis obrigam, atualmente, a separação desses estágios iniciais. Em seguida adiciona-se gelatina que, por o suco ser um tanto adstringente, irá colaborar para a retirada do “travamento” que o caju causa na garganta, além de facilitar na separação dos taninos (quando no meu tempo de criança, utilizava-se, no lugar da gelatina, cola em barras, dessas, tipo goma arábica, vendidas em armazéns, que seriam derretidas no momento de ebulição). Finalmente, a clarificação, conseguida com a fervura do produto final em Banho Maria, já acondicionado em garrafas de vidro, lacradas com tampinhas metálicas. No passado, arrolhavam-se os gargalos, aplicando-se breu derretido nos bocais, para perfeita hermetização dos conteúdos.

O inventor do intrincado processo foi o baiano Rodolfo Marcos Teófilo (Salvador, 06/maio/1853 – Fortaleza, 02/julho/1932), farmacêutico pela Faculdade de Medicina da Bahia (1875) e estabelecido no Ceará desde muito cedo.

Com elevados pendores ao cientificismo, Rodolfo Teófilo chegou à sua formulação final em 1900, com o intuito de, com o seu elixir, combater o alcoolismo que predominava entre o povo cearense, até hoje com tendências etílicas bastantes acentuadas. Julgava-o um substituto benévolo da cachaça. Como de fato o era, já que na época os consumidores não contavam com os paliativos disponíveis no mercado às bebidas alcoólicas: refrigerantes, águas gaseificadas e/ou adicionadas de essências, isotônicos, energéticos, etc. E é dele também o nome do produto, hoje, antes de mais nada, universal.

                                               Farmaceutico Rodolfo Marcos Teófilo

 Direcionado pelo mesmo princípio de oferecer benesses à população no ramo da farmacologia, Rodolfo Teófilo criou também, entre outras coisas, uma vacina contra a varíola, doença infecto-contagiosa que grassava entre os moradores de Fortaleza no começo do século XX (e que chegou, em certas ocasiões, a ceifar, por dia, a vida de mais de mil cidadãos). Abnegado, montado em seu cavalo, percorria os subúrbios da cidade, vacinando e ajudando às pessoas menos favorecidas; e salvando milhares de vidas.

Além disso, foi escritor, poeta, documentarista, contista e articulista. Tornou-se professor de ciências naturais da Escola Normal, participou de diversas sociedades culturais e exponenciou-se como abolicionista. Integrou os movimentos literários da sua época e foi membro da Padaria Espiritual, entidade revolucionária nas áreas artística e de literatura, que se antecipou em mais de trinta anos ao movimento modernista da Semana de 22 paulista. E como historiador e romancista, foi fundador da Academia Cearense de Letras. Considerado um dos expoentes da literatura regional-naturalista do Brasil, sem dúvida é um dos maiores nomes da literatura do Ceará.

Foi homenageado pela cidade em que viveu e que o acolheu: Rodolfo Teófilo é nome de um bairro da capital. Mas, assim me parece, tudo que puder ser feito para elevá-lo, ainda é pouco, em relação ao que ele fez, ao seu tempo e ao seu povo.

Creio que o Ceará não se torna melhor por ter sido o leito de uma bebida; e nem Teresina, cidade que eu amo, se torna menos encantadora por não sê-lo. Comungamos aos semelhantes gostos e sentidos, professamos o mesmo sabor por esse líquido adocicado, refrescante e palatável, extremamente apropriado ao clima nordestino.

Mas, em nome do louvor à justiça, diga-se, merecidamente: o inventor da cajuína é, indubitavelmente, Rodolfo Teófilo.

E por falar em cajuína, quando você quiser provar a melhor do mundo, vá até o município de Granja, no noroeste cearense e procure a Casa do Peixoto. Levemente “queimada”, ela é a prova que tudo pode ser feito de uma maneira melhor do que a que você imaginava.

Mas vá de “bucho seco”: duvido que você beba menos que um litro!